Não gosto de almoçar sozinho. Por isso, sempre que posso, vou a uma qualquer esplanada trincar uma sandes e beber o meu sumo. Estava na parte do cigarro e do café quando duas mulheres, na casa dos 25 anos, sentaram-se à minha frente.
Ao início fiquei um bocadinho triste porque taparam-me a vista da praia (e como a praia hoje estava bonita...) mas, o meu almoço não podia ter tido melhor final.
O que parecia ser uma bonita conversa entre duas pessoas afinal revelou-se ser um monólogo no qual uma das mulheres debitava informação em quantidades industriais a uma velocidade impressionante, e a amiga coitada, não conseguia interromper, mudar de assunto, opinar. Em suma, só sorria e abanava a cabeça em sinal afirmativo.
Gosto de ser discreto quando estou a observar alguém, e como já me disseram que tenho tendência a olhar directamente para as pessoas que observo, refugio-me agora no velho truque do "leitor de esplanada". Este truque é muito simples, basta trazer um livro de casa e sempre que se quiser escutar uma conversa alheia é fazer de conta que o livro está no seu melhor e não tirar os olhos das páginas. Convém ir mudando, de vez em quando, de páginas. Afinal é um truque para espiar pessoas, não fica bem ser apanhado a espiar...
Voltando às minhas companheiras de esplanada: lá estavam elas, uma a contar toda uma experiência significativa de vida e a outra desgraçada, já a esforçar-se para manter o sorriso, lá estava a incentivar a outra na sua história desinteressante. Sim, dei-me ao trabalho de ouvir um bocadinho mas aborreceu-me tanto que desisti. Preferi contar mentalmente a quantidade de palavras que a rapariga dizia sem inspirar (houve uma altura em que conseguiu uma sequência impressionante de 24 palavras seguidas! Estive quase para me levantar e ir dar-lhe os parabéns), as vezes que repetia a mesma frase na esperança que a amiga fizesse um "uau" (quase sempre o "uau" vinha na primeira repetição, mas a oradora gostava de repetir sempre mais uma vez) e mais algumas características fascinantes que, de momento, não me recordo.
Sei que depois deste episódio reflecti um pedaço e percebi que almoçar sozinho afinal não é tão mau quanto parece. Aproveitei o livro aberto e retomei a leitura do ponto onde tinha deixado no dia anterior.
Concluiste que o mais interessante para fazer numa esplanada sozinho é ler um livro ;-) À parte as brincadeiras, ser apenas espectador e não recetor dá-nos uma liberdade que não é permitida na outra posição e por isso melhores condições para observar, ser crítico ou simplesmente refletir sobre a situação que presenciamos. É muito enriquecedor, quase tanto como ler um livro completo ;-)
ResponderEliminarDescreveste muito bem uma situação quotidiana e recheaste-a de significado. Gostei.
ResponderEliminarConcordo! Observar os outros num ambiente não manipulado enriquece-nos como pessoas. O livro levo-o, não só para que os "observados" não percebam que os estou a observar, mas também porque às vezes estes são deveras desinteressantes. Da última vez vi um casal em que o desprezo um pelo outro era tão patente (e estavam rodeados de conhecidos) que só lhes resta uma de duas: ou o divórcio ou uma vida infeliz até que a "morte os separe". Aposto na segunda, aquilo tinha ares de ser assim há imenso...
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