terça-feira, 21 de agosto de 2012

Almoço na esplanada

Não gosto de almoçar sozinho. Por isso, sempre que posso, vou a uma qualquer esplanada trincar uma sandes e beber o meu sumo. Estava na parte do cigarro e do café quando duas mulheres, na casa dos 25 anos, sentaram-se à minha frente.

Ao início fiquei um bocadinho triste porque taparam-me a vista da praia (e como a praia hoje estava bonita...) mas, o meu almoço não podia ter tido melhor final.

O que parecia ser uma bonita conversa entre duas pessoas afinal revelou-se ser um monólogo no qual uma das mulheres debitava informação em quantidades industriais a uma velocidade impressionante, e a amiga coitada, não conseguia interromper, mudar de assunto, opinar. Em suma, só sorria e abanava a cabeça em sinal afirmativo.

Gosto de ser discreto quando estou a observar alguém, e como já me disseram que tenho tendência a olhar directamente para as pessoas que observo, refugio-me agora no velho truque do "leitor de esplanada". Este truque é muito simples, basta trazer um livro de casa e sempre que se quiser escutar uma conversa alheia é fazer de conta que o livro está no seu melhor e não tirar os olhos das páginas. Convém ir mudando, de vez em quando, de páginas. Afinal é um truque para espiar pessoas, não fica bem ser apanhado a espiar...

Voltando às minhas companheiras de esplanada: lá estavam elas, uma a contar toda uma experiência significativa de vida e a outra desgraçada, já a esforçar-se para manter o sorriso, lá estava a incentivar a outra na sua história desinteressante. Sim, dei-me ao trabalho de ouvir um bocadinho mas aborreceu-me tanto que desisti. Preferi contar mentalmente a quantidade de palavras que a rapariga dizia sem inspirar (houve uma altura em que conseguiu uma sequência impressionante de 24 palavras seguidas! Estive quase para me levantar e ir dar-lhe os parabéns), as vezes que repetia a mesma frase na esperança que a amiga fizesse um "uau" (quase sempre o "uau" vinha na primeira repetição, mas a oradora gostava de repetir sempre mais uma vez) e mais algumas características fascinantes que, de momento, não me recordo.

Sei que depois deste episódio reflecti um pedaço e percebi que almoçar sozinho afinal não é tão mau quanto parece. Aproveitei o livro aberto e retomei a leitura do ponto onde tinha deixado no dia anterior.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"The only thing you can rely on is that you can't rely on anything" - Placebo

Ouvindo casais aleatoriamente apercebi-me que estão todos formatados para afirmar, sem qualquer tipo de reservas, que a confiança é das condições mais importantes para se ter uma relação feliz e duradoura.

Acredito que a confiança seja fundamental para uma relação duradoura, mas feliz? Não creio. Aliás, para mim, confiança provoca numa relação o mesmo que a ausência de sal provoca na comida: faz muito bem à pressão arterial mas não sabe tão bem quanto poderia saber.

A confiança asfixia uma relação.

Quem ama cuida,  quem cuida protege e quem protege desconfia.

A desconfiança aqui retratada não é o mesmo que ciúme obsessivo. Não, esta desconfiança permite não dar tudo como um dado adquirido, fazendo com que andemos constantemente com a pulga atrás da orelha. Ao estarmos desconfiados vamos estar mais atentos à outra pessoa. Não é de falta de atenção que muitos casais se queixam?